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Torres Vedras, Portugal
ALÉM DE AMAR JANIS JOPLIN, TAMBÉM ESCREVO E PINTO
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26.4.08

Amigos



Seria um belo dia de sol, cerveja na mesa e grandes gargalhadas. Seria. Se não fosse também o dia do meu enterro.
Estou no meu velório. Olho em redor e vejo algumas pessoas queridas que choram por mim, algumas que já nem nos falávamos e que me pedem perdão. Uma senhora que conversava comigo como fosse a minha mãe, pobrezinha, quase veio comigo. Uma ex-namorada também apareceu, e disse ao meu ouvido que ainda me amava. Muitos disseram coisas ao ouvido... Mas não falam comigo, acham que não posso ouvir, falam para si mesmos, como se ao desabafarem, pudessem apagar as marcas do passado, perdoam-se pelos erros cometidos e pelas coisas que deveriam ter feito - ou deveriam ter-me dito - em vida... Engraçado, só agora estou perceber as pessoas como elas realmente são. A maioria dos que acreditavam que eram meus amigos nem se deram ao trabalho de se despedirem. Alguns vieram. Um ou dois, apenas para ficarem bem na fotografia como fosse uma eleição pessoal, a maioria, no entanto, olha para o caixão e não me vê, tão pouco sente alguma coisa, além da frustração por eu ter estragado o dia de folga, cerveja… Se eu estivesse vivo, muitos dos que não apareceram estariam comigo a beber e, brindaríamos à nossa amizade. Mas os mortos não pagam contas. Devem estar a brindar à amizade de alguém mais vivo. Não vou culpá-los, os amigos são feitos para momentos alegres, de dinheiro no bolso e sucesso na vida. Para a tristeza, a pobreza e os velórios, é preciso amor, coisa tão rara hoje em dia, ninguém tem culpa por não amar o próximo.
Fico a olhar para as flores amarelas que colocaram à volta do meu corpo, vejo-as a murchar, e só então me dou conta de como foi rápida a minha vida. Deixei de fazer tantas coisas, quantos projectos adiados; ficou tudo para o amanhã que nunca mais virá. Fixo os olhos na luz das velas, a cruz posta à minha frente e, finalmente, acabam de chegar a mim, uns olhos torturados pela dúvida, num pranto desesperado e cheio de medo.
- Porque não falaste comigo? Porque não pediste a minha ajuda? - Começa a gritar a minha amiga enquanto outras duas seguravam-na a pedirem-lhe calma. Eu digo que falei com elas, que pedi ajuda diversas vezes, lembro-lhes dos e-mails desesperados, das cartas dolorosas, dos telefonemas não atendidos e sobretudo do silêncio afligido. Relembro o dia em que fui mais directo e disse estar com medo de morrer, que pensava em me suicidar embora não o quisesse e implorei por um perdão que não veio; desde o dia em que desapareci e ninguém se preocupou...
Mas, como não ouviram nada disso em vida, mais uma vez ninguém me ouve. Penso então no que poderia ter acontecido caso eu tivesse sido um pouco mais forte e não tivesse cumprido a minha profecia. Provavelmente eu estaria vivo; as pessoas continuariam despreocupadas, aliás, despreocupadas não, estariam mais preocupadas em se afastar de mim, seria um perigo em potencial para quem quisesse ajudar-me. Provavelmente, até era acusado de louco e afastavam-se cada vez mais. Eu não sei, talvez voltássemos a ser amigos, e fingiríamos que nada aconteceu; que sempre acreditaram em mim e que nunca me abandonariam. A minha dúvida é somente uma: Eles não acreditaram que eu me pudesse suicidar de verdade ou, apenas não ligaram para o risco de isso ocorrer realmente? Agora têm a oportunidade de reflectir sobre isso, de se arrepender pelo abandono a que me submeteram, de não acreditar em mim, afinal, eu cumpri.
Mas eu pergunto sem encontrar respostas: se eu não tivesse feito isso, se eu tivesse conseguido forças para não cometer o suicídio e seguir a minha vida em frente, estas pessoas compreenderiam que não foi graças a elas?