A minha foto
Torres Vedras, Portugal
ALÉM DE AMAR JANIS JOPLIN, TAMBÉM ESCREVO E PINTO

14.5.10

O Mundo


Eu tive que escrever... escrever...escrever..crer...ver...
Criei o meu delírio
Tive que fazê-lo
Dei-lhe forma
como um pequeno deus em desespero
Hoje, sei, que em qualquer lugar que vá,
há sempre uma folha branca à minha espera
e uma paleta de cores
vermelhos, azuis e amarelos
Pois eu abri um mundo imenso,
dentro do meu peito
Neste poço fundo em que me encontro
a folha branca alumia
os meus olhos de sonhos!

29.9.09

Se o tempo
não tivesse passado
tão célere,
tão descompassado,
eu ainda teria
cachos nos cabelos,
e flores,
emolduradas.
Ouviria Lennon,
com outros adeptos
e sorriria, cheio
de esperança
em dias amenos...
Se o tempo não fosse
esse senhor implacável
eu ainda teria
tantos sorrisos,
afagos...
O que me aniquila
é não aceitar
o tempo
tal como ele é.

28.8.09


Porque eu ainda não estou morto,
não cantem hinos
Não é a minha missa de sétimo dia,
Silenciem os sinos
E não celebrem ainda a minha missa de corpo presente
Pois da festa da minha morte eu ainda estou ausente.

A Minha fé, ai a minha fé:
Acreditei em amigos,
em amores eternos
Mas agora a minha religião
é apenas uma solidão
dos infernos
Resta apenas repetir rimas toscas,
soletrar poemas insanos
Pois estarei com a minha solidão
pelos próximos cem mil anos.

Idiotas da Terra,
o egoísmo é a destruição da humanidade.
Caminho ao redor de uma sepultura
aberta, esperando por mim.
Todos somos apenas mortos ambulantes
à espera do fim…
Não adianta fugir nem orar ou pedir perdão
Porque a solidão mortal do homem
é a única e real religião.

13.5.09

O que Sei



Vocês , os que fazem perguntas
e perguntas cíclicas,
confusas e teimosas,
pois digo-vos, e se repetir
for preciso, reafirmo:
" Não tenho respostas
que vos sirva"

O que sei da vida é pouco
Muito pouco
Tão pouco que caberia
com folga
sobre a pétala
de uma rosa
O que sei, se sei,
é um olho branco,
apenas um -
bonito, suspenso, indivisível

Vocês que perguntam!
O que querem que
vos responda?
Não tenho resposta
Tudo que sei é mínimo
Tão mínimo que não daria
sequer para encher
uma barquinha de papel
O que sei
é de voo apenas
De voos, eu sei
mas o voo não é resposta

Sei do líquen
sobre a pedra
Da coisa húmida, lisa, viva
que faz o pé desprevenido
resvalar na sensação
de um abismo tangível

Ai vocês! Vocês, os perguntadores!
Pois eu não sei das respostas
que combinam com as vossas perguntas
Só sei das respostas
que rimam ...que cantam....
Não vêem que quero ser poeta?
O que sei é
que a probabilidade de uma ave,
neste instante,
cair sobre a vossa cabeça,
devido à direcção dos ventos
e à época do ano,
é de 0,052 por cento
O que sei é
o que as estatísticas provam :
De cem-mil-milhões de perguntas,
a resposta certa só
se concede a uma -
apenas a uma, de cada vez!

O que sei,
o que sei
é nada
No entanto,
o que sei
está sempre inquieto, mexe, renhido,
ao longo dos meus dias,
livrando-se de sílabas,
tornando-se cada vez mais límpido!


3.5.09

HOMENAGEM A ELEUTÉRIO SANCHES ( meu Mestre )



A tabuada não basta. Como não bastam funções hiperbólicas, variáveis complexas, orações subordinadas. Não bastam Euclides e a sua geometria, não bastam as teorias. O professor deve ensinar ao aluno a arte de viver com dignidade, com amor, com liberdade.

Não basta falar das guerras, das batalhas, das conquistas — tem que ensinar o aluno a conquistar-se primeiro a si próprio. Ensinar-lhe a medir distâncias é pouco — é necessário vencê-las. Não basta saber o nome dos rios, temos que fluir. Equações algébricas não resolvem tudo, antes é preciso resolver-se. Em vez das mentiras históricas, o professor deve ensinar as verdades, e o melhor modo de encontrá-las. Não basta falar de política, o professor tem que ser democrata. Deve olhar nos olhos do aluno e dizer-lhe como a vida é. Aumentar-lhe a coragem de crescer. Ensinar-lhe a lógica das emoções e o amor pelo raciocínio.

O professor transmite sabedoria, incentiva o bom senso e o bom gosto. Mergulha fundo no oceano de dúvidas que o aluno tem no coração, e traz o tesouro pulsante lá submerso. Educa, orienta, aviva a chama na consciência de cada um.


Bom professor é aquele que não exige, não cobra — obtém. Não corrige — mostra o porquê. Não hesita quando avalia, não constrange quando examina. E nunca faz da nota uma espada.

O bom professor não só ensina, compreende. Não levanta a voz, amplifica o verbo, convence. É sério — mas ri da própria seriedade. Fala do êxtase, da alegria e da profunda emoção que explode no seu peito quando ensina, como pétalas no riso de quem ama.

O professor mostra ao aluno a diferença entre o silogismo e a serpente. Ensina-o a extrair a raiz quadrada com poesia. Demonstra como ser ousado sem ser burro. Jamais abusa da confiança do aluno, não lhe invade o espaço, não procura condicioná-lo. Não cria relações de dependência, nem exerce dominação sádica sobre ele. Infunde-lhe o respeito absoluto pela vida. Prefere o aluno criativo ao bem-comportado. Nunca o explora, é só o conquistador de um novo mundo, que leva o aluno a ver mais — mais alto e mais longe.

Não levanta paredes em torno do aluno, e sim derruba aquelas que houver. Abre-lhe as portas da vida, com veemência. Não o repreende, não o censura, não o recrimina. Mostra ao aluno a importância da inteligência na determinação do seu futuro. O velho dilema entre a caneta e a vassoura...

O bom professor não vê glórias no que sabe, não esconde o que conhece, nem oculta o que possa não saber.

Brinca, tem confiança em si, e não faz da escola uma cela. Moderno, convence o aluno a saltar os muros da tradição, porque a aventura está sempre do outro lado. Lógico, respeita aquele que aprendeu a questionar. Não o sufoca com preconceitos nem com juízos de valor. Nem lhe causa medo algum. Transmite confiança, pega na mão, aplaude, incentiva, suporta, conduz, ampara na travessia. Não é hipócrita, faz o que diz e diz o que pensa. É um farol que não vela o que descobre. Mostra um caminho. E não apenas mostra — demonstra, comprova, define.

Aranha em teia de luz, o professor não prende — liberta. Carrega o giz como fosse uma flor, com amor. E quando faz a linha tem firmeza, mas não separa. Ora Dali, ora Picasso, vai colocando a tinta, pondo seu traço, amando seu gesto, compondo a canção. Enaltece o risco do sonho, o círculo do fogo, a pureza da alma, o princípio da vida, o anel da esperança.

Considera o aluno obra de arte quase inacabada.

Ama-o como se fosse um anjo.

E nunca vai matar-lhe no peito a vontade de ser livre.

O professor é o amigo sincero que ajuda o aluno a superar os limites da vida, desbravando com determinação e ousadia essa fantástica região chamada Experiência.

Enfim — o professor é o Mestre.

Obrigado Eleutério Sanches, meu mestre em artes plásticas e design de 78 a 81.


Eleutério Sanches nasceu em 1935 na capital angolana. Em 1962, ingressou na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL) e fez a licenciatura em Pintura. Durante 10 anos exerceu o cargo de monitor de pintura no Departamento de Ergoterapia do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa.

É professor de Artes Plásticas.


O seu nome é citado na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura "Verbo".


Como pintor realizou várias exposições individuais no Palácio Foz, Lisboa, em Braga, Barcelos, na Junta de Turismo do Estoril, Évora e Castelo Branco, na Casa de Portugal de Nova Iorque; nos Açores, Madeira e Lisboa, na Faculdade de Medicina, no CITA (Luanda) e em Lourenço Marques (Maputo), na TAAG Lisboa; na Sede da UNAP pela Secretaria da Cultura, Luanda, e no 20º Aniversário da Independência de Angola, Luanda. Está representado em inúmeras colecções particulares (nacionais e internacionais) e em museus.



Cubatas velhas

vermelhas do solo

velho vermelho,

e a chuva tamborilando

por cima do zinco velho

e a minha velha lavandona

velha celha cantando

já não há mais folhas secas

sobre o zinco das cubatas,

umas o vento as levou

outras são velhas canoas

sobre as vermelhas lagoas,

que a chuva improvisou

e onde o neto da ximinha

"xapinha contente e nu"


( pintura e poema de Eleutério Sanches)